Sexta santa = Jejum e crendices

Quando era criança, a quaresma era época de não comer carne em certos dias da semana, não falar palavrão, fazer um jejum leve todas as quartas e sextas-feiras (acho que era isso, me lembro bem das sextas) onde não se podia, em tais dias, tomar café da manhã, mas somente almoço após as 12:00 e jantar antes do pôr do sol, finalizando com rezas após cada refeição. Eu achava engraçado, porque comiam se mais e com direito a sobremesa, o que não era costume em dias normais, fato que as crianças amavam, já que elas não podiam praticar o jejum, mas tinham que participar das rezas.

A semana santa era mais pessada. Não me recordo da rotina. Vagamente tenho lembranças das minhas irmãs dizendo que não aguentavam mais de fome. Logo eu pensava: deve ser bom pra ficar mais magra e ainda pagam-se todos os pecados.A sexta da paixão era dia de silêncio e jejum quase absoluto sem direito a água antes do meio dia. Não se trabalhava nesse dia, nem poderia sequer varrer o chão e pentear cabelo. Nunca entendi as razões impeditivas de tais atos, mas lutava para desembaraçar a gaforinga com os dedos. 

Os receios do que poderia acontecer com a desobediência na sexta santa era a recordação dos  contos de meu pai e de seus amigos desde que eu passei a entender e a ouvir no corpo de criança. A estória era mais ou menos algo assim: aqueles que iam contra as determinações da sexta santa não conseguiam dormir a noite, porque o demônio ou assombração atentariam fazendo barulhos pelos assoalhos da casa, com passos fortes, arrastando os móveis, batendo as janelas e portas e outras infinidades assustadoras levando o pecador a loucura. Imagina crescer ouvindo isso? a cada conto eu jurava que era verdade, porque ninguém opinava ao contrário. E assim, cada um ia contando o que aconteceu na casa do fulano, do beltrano, do ciclano...as sextas passaram a ser noites de receio e eu não conseguia dormir no receio de que ouviria barulhos pelo casarão da fazenda, que por si só, já era assustador a noite. 

Criança acredita em qualquer conto. Eu acreditava em tudo: que papai noel viria voando das estrelas com seu trenó para trazer presentes em dias de natal, que as pessoas transformavam em mulas sem cabeça, em lobisomem, fantasmas e todo tipo de esquesitices além planeta terra.
Hoje tudo mudou ou quase. Poucos respeitam a sexta-feira santa, o povo anda perdendo a fé se não a perdeu por completo, não há respeito por nada e ninguém, é uma selvageria de sobreviva o mais forte.
Que sua sexta seja santa e até sábado de aleluia!
Xoxo

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